Saúde mental no trabalho: responsabilidade do colaborador ou da empresa?

A saúde mental no ambiente de trabalho deixou de ser um tema periférico e passou a ocupar posição central nas discussões sobre gestão, produtividade e responsabilidade legal. O aumento dos afastamentos por transtornos mentais, a queda de desempenho e os impactos econômicos associados levantam uma questão inevitável: cuidar da saúde mental no trabalho é responsabilidade do colaborador ou da empresa? Este artigo analisa o tema sob a ótica técnica, legal e organizacional, buscando esclarecer papéis, limites e responsabilidades compartilhadas.

Michele Espindula - Ergonomista

Por Michele Espindula - Ergonomista

17 Fevereiro 2026

Saúde mental no trabalho: responsabilidade do colaborador ou da empresa?

 

Introdução

A saúde mental no ambiente de trabalho deixou de ser um tema periférico e passou a ocupar posição central nas discussões sobre gestão, produtividade e responsabilidade legal. O aumento dos afastamentos por transtornos mentais, a queda de desempenho e os impactos econômicos associados levantam uma questão inevitável: cuidar da saúde mental no trabalho é responsabilidade do colaborador ou da empresa?

Este artigo analisa o tema sob a ótica técnica, legal e organizacional, buscando esclarecer papéis, limites e responsabilidades compartilhadas.

O que é saúde mental no contexto ocupacional

Saúde mental no trabalho não se resume à ausência de transtornos psicológicos. Envolve a capacidade do trabalhador de lidar com as demandas laborais, manter equilíbrio emocional, engajamento, senso de pertencimento e desempenho funcional.

Fatores como carga de trabalho excessiva, pressão por metas, assédio, falta de autonomia, jornadas prolongadas e ambientes organizacionais tóxicos estão diretamente relacionados ao adoecimento psíquico.

Responsabilidade do colaborador: até onde vai?

O colaborador tem, sim, responsabilidades individuais relacionadas à sua saúde mental, tais como:

·       buscar hábitos de vida saudáveis;

·       comunicar limites físicos e emocionais;

·       aderir às orientações de saúde e segurança;

·       procurar ajuda profissional quando necessário;

·       participar de ações e treinamentos oferecidos pela empresa.

Entretanto, é importante destacar que o trabalhador não detém controle sobre a organização do trabalho, metas, cultura corporativa ou estilo de liderança. Portanto, sua responsabilidade é limitada ao âmbito individual e comportamental.

Responsabilidade da empresa: dever legal e ético

A empresa tem responsabilidade direta e intransferível sobre o ambiente de trabalho. No Brasil, a legislação trabalhista e as normas de segurança e saúde do trabalho estabelecem que cabe ao empregador identificar, avaliar e controlar os riscos ocupacionais, incluindo os riscos psicossociais.

Com a atualização da NR-01 (Gerenciamento de Riscos Ocupacionais – GRO), fatores como estresse crônico, sobrecarga mental, pressão excessiva e assédio passaram a integrar, de forma mais clara, o escopo de avaliação dos riscos.

Isso significa que a empresa deve:

·      mapear riscos psicossociais no PGR;

·      revisar organização do trabalho e cargas excessivas;

·      capacitar lideranças para gestão saudável de pessoas;

·      prevenir assédio moral e organizacional;

·      promover ações efetivas de saúde mental.

Ignorar esses fatores pode gerar passivo trabalhista, afastamentos e queda de produtividade.

O impacto da negligência organizacional

Quando a empresa transfere integralmente a responsabilidade para o colaborador, surgem consequências claras:

·      aumento de afastamentos por ansiedade, depressão e burnout;

·      presenteísmo (trabalhador presente, mas improdutivo);

·      aumento do turnover;

·      queda no engajamento e no clima organizacional;

·      judicialização de conflitos trabalhistas.

Ambientes que adoecem pessoas não podem exigir resiliência ilimitada como solução.

Responsabilidade compartilhada: o modelo mais eficaz

A abordagem mais eficaz e sustentável é a responsabilidade compartilhada, com papéis bem definidos:

Empresa

·      criar condições de trabalho saudáveis;

·      organizar demandas de forma realista;

·      respeitar limites humanos;

·      cumprir normas legais;

·      investir em prevenção

Colaborador

·      adotar comportamentos saudáveis;

·      comunicar sinais de sobrecarga;

·      utilizar recursos oferecidos;

·      participar ativamente das ações preventivas

Esse equilíbrio reduz riscos, melhora resultados e fortalece relações de trabalho.

Saúde mental e produtividade: dados que não podem ser ignorados

Organizações que investem em saúde mental apresentam:

·      redução do absenteísmo;

·      melhora do desempenho individual e coletivo;

·      maior retenção de talentos;

·      melhora da imagem institucional;

·      redução de custos com afastamentos e processos.

Cuidar da saúde mental não é benefício extra: é estratégia de gestão e compliance.

O papel da liderança nesse processo

A liderança é um fator determinante. Gestores despreparados podem ser gatilhos de adoecimento mental. Por outro lado, líderes capacitados conseguem:

·      identificar sinais precoces de sofrimento;

·      ajustar demandas;

·      promover diálogo seguro;

·      reduzir conflitos e pressão desnecessária.

Treinar lideranças é uma das ações com maior retorno organizacional.

 

Conclusão

A saúde mental no trabalho não é responsabilidade exclusiva do colaborador nem um problema individual. Trata-se de uma questão organizacional, legal e estratégica, na qual a empresa possui papel central na prevenção e gestão dos riscos.

O colaborador é corresponsável, mas não pode ser responsabilizado por ambientes que adoecem. Empresas que compreendem isso avançam não apenas em conformidade legal, mas em produtividade, sustentabilidade e qualidade das relações de trabalho.



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